Era jovem. Morava sozinho, trabalhava o dia inteiro e só chegava a casa - certa quitinete na avenida principal da cidade - exatamente às dezoito horas e vinte e sete minutos. Nunca mais nem menos. Isso porque deixava o serviço às dezoito e um. Dezoito e treze, estava a certa distância e o seu pensamento já se desligara completamente do trabalho. Um cliente ficara a ser contatado no dia seguinte, amanhã pensaria nele. Agora, a mente esvaziava-se e apenas os pés agiam cooperadamente a fim de levar o dono ao seu destino. Ou será que faziam por puro hábito? Afinal, sempre a mesma rotina!Às dezoito e vinte, encontrava-se na sua rua. Enfim, despertava daquela hipnose; o movimento de carros, transeuntes passeando, estudantes à caminho da escola (outros não!). Uma mãe a puxar o filho birrento (ensurdecedor aquele choro. Uma alma ansiando por crescer. Desejando, ainda que inconscientemente: Mais alguns anos, eu viro o jogo!).
Dezoito e vinte e cinco, abria o portão da escada de sua quitinete. Aos berros, a vizinha de baixo ordenava-o, há uma semana, consertar a infiltração vinda da pia dele, que estava a estragar-lhe toda a pintura do teto, reformado há dois meses. Vou consertar, só não tive tempo. Domingo eu faço isso. Domingo não, tem de ser antes ou a minha pintura estraga de vez!
Sentava à cama, então, sempre às dezoito e vinte e sete. Um homem jovem. Sozinho, bonito, apessoado. No rosto, a barba sempre aparada, limpa. Tinha-a para embair-lhe o rosto de menino.
Quase sempre, após repetir a costumeira rotina, a vizinha chegava em seus concertos berrantes. Como é? Que tal meu teto? Olhe, se ele cai você fica sem onde pisar, idiota!
Iniciou-se mais um episódio da ópera.
Cala a boca, cabra velha! Domingo. Eu já lhe disse. Domingo terei tempo. Até lá, pare de mugir. Parece uma vaca com dores. Ou uma égua em instantes de parir. Domingo! Domingo!
A mulher emudeceu. Entrou em casa, aos prantos. O rapaz subiu. E passada a efervescência do sangue, mergulhou-se na escuridão em que costumava ficar.
Jogou a mochila ao pé da cama. Despiu-se. Roupas e sapatos ao chão, abriu a janela do quarto. Esta dava para o quintal da mulher de baixo. Sentiu o vento tocar-lhe o corpo. Gostava da brisa a lhe acariciar suas partes fronteiriças. Tão abafadas por horas inteiras. Agora, a recompensa. Um gratificante arrepio. Ali ficou quinze minutos e fechou a janela. Entrou para o banho. Estava frio do vento e a água tocava-lhe o corpo como cristais enregelados. Após o banho, enrolado na toalha, percebeu seu quarto, o seu mundo. Perguntou-se o que era. Por que era? Quem ele mesmo era. Era, era, era... Não achava resposta.
Sentou-se próximo ao banheiro, lembrou-se do trabalho que exercia sempre roboticamente. Bom dia, senhor. Constatamos um débito... tudo bem, senhor. Agradecemos a colaboração. Deus! E aquela mulher que toda noite puxa a criança como a um bezerro desgarrado. E a vaca lá de baixo. Sempre a mugir. Uma velha medíocre. E esse quarto. A pia que pinga incessantemente. Nada é bom, aqui. A janela. Ah! Essa me dá satisfação. O resto é ridículo.
O homem começou a olhar tudo, sentiu nojo. Da vida, do mundo, da velha de baixo, da mãe do menino, do menino, do trabalho, dos clientes, do quarto, do ventilador vagaroso e angustiante. Rodava, apenas. Ilusória tentativa. Ilusória vida. Traçando o mesmo caminho, a mesma velocidade, a mesma rotina. Tal a sua vida. E essa sensação o fez estremecer. Talvez nunca saísse da mesmice. Ilusória vida. E ele que sonhava ser grande! Não, não iria passar anos vendo sua derrota. Novamente, sentiu nojo de tudo, uma náusea fê-lo levantar-se e cair de imediato na cama. Sentia-se mal. Um novo estremecer balançou suas carnes. Percebeu-se sem forças, afundando no colchão. Minha cabeça dói, pensava. E tinha raiva. De novo, a figura da mulher de baixo, a pia, o menino, o choro dele, os berros da mãe, a avenida fervorosa, o mundo, a vida. Que vida? A mesma do ventilador? Não, não quero!
E teve febre. À sua frente, tudo vermelho, a desfazer-se. Um líquido viscoso a cair da sala da mulher de baixo. Vacas correndo injuriadas, num descampado que surgia ali. Éguas lhe davam coices e aquilo lhe doía as costelas. Um berro saía da torneira alargando-a extremamente. Doíam-lhe os ouvidos. O ventilador aproximava-se, as hélices a quererem mutilar-lhe a face. Uma vontade de gritar, a voz não veio. Um querer sair dalí, mas a força não comparecia. Mais coices. As costelas a doerem. As vacas pesadas, loucas, sem direção. O berro! A porta da quitinete diminuía e o resto era gosma. A náusea aumentava. Algo subia de seu estômago, dilatando o tubo digestório e chegando à boca. Expeliu algo seboso. Os viscos uniram-se e começaram a endurecer retomando a forma das coisas.
Tudo voltou ao normal. O jovem melhorou, retomando lentamente as forças. Levantou-se, abriu a janela. Tirou a toalha, buscou a satisfação de antes.
Não a encontrou. Culpou a janela. Amaldiçoou a brisa. Subiu ao parapeito, segurando-se fracamente nas laterais. O vento não vinha. Escorria-lhe o suor. Uma gota lhe caiu da nuca e deslizou-lhe pelo pescoço abaixo. Sentiu nojo, raiva. De novo, as figuras febris. Teve ímpetos de se jogar. E o fez.
Um surdo barulho foi escutado. De olhos abertos, ainda via a janela do quarto. Olhavam-no a velha de baixo, a mãe do menino, o menino, os clientes, os estudantes, o mundo, a vida, e a janela. Tudo se embaçou. Não viu mais nada. Negrume e silêncio.
Na escuridão, um despertador grita agudamente. O jovem acorda e vê-se debruçado sobre a escrivaninha, babando sobre um papel escrito. Estava vivo. Levantou-se. Leu o papel. Assinou-o e intitulou-o: “Carta de um suicida”. Abriu a gaveta e jogou lá dentro, onde havia outras cartas. Todas com o mesmo título, mas conteúdos e datas diferentes. Tomou banho, café, vestiu-se, foi-se. E certamente estaria em casa às dezoito horas e vinte e sete minutos...
Autor: Leo Cerqueira















